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Defesa de marca02 nov 202611 min7 fontes

Como saber, com o Search Console, se os AI Overviews estão roubando seus cliques

Leandro Aveiro, fundador da Rekon

Neste artigo

Compare consultas com e sem AI Overview, na mesma faixa de posição. Se só as que têm a caixa perdem cliques, ela é a causa provável; se todas caem juntas, o problema é outro. O padrão famoso, impressão subindo e clique caindo, levanta a suspeita e não prova nada, porque o próprio Search Console passou quase um ano contando impressão errado.

O retrato mais recente desse padrão vem da Outrank, que vende publicação automática de conteúdo. Ela acompanhou 415 sites de clientes de outubro de 2025 a agosto de 2026: a mediana de impressões multiplicou por 2,18, os cliques subiram 22% e o CTR mediano foi de 1,19% para 0,73%. Perderam CTR 79% dos sites.

Agora a linha que quase ninguém repete: 59,5% deles ganharam cliques no mesmo período.

CTR em queda e negócio em queda são coisas diferentes. E essa fração anda difícil de ler.

Por que impressão subindo e clique caindo não fecha o diagnóstico?

Porque, desde 2025, o denominador do CTR mudou de regra mais de uma vez.

A mudança maior está na página de anomalias do Search Console. O Google registra um erro de log que impediu o relato correto de impressões de 13 de maio de 2025 a 27 de abril de 2026. Foram afetadas as impressões, o CTR e a posição média. Os cliques, não. Repare no que isso faz com qualquer antes e depois que atravesse abril: o CTR antigo está errado, e você não tem como corrigi-lo.

O estudo da Outrank tem esse problema e não o menciona. Outubro de 2025, a base dele, está dentro da janela do erro. Minha leitura: se as impressões daquele mês estavam infladas, o salto real seria ainda maior que 2,18 vezes. É inferência, porque nem o Google nem a Outrank quantificam a inflação. A própria empresa lista outra ressalva: os clientes dela publicam todo dia, e página nova começa onde quase ninguém clica.

Existe um segundo efeito, mais traiçoeiro. O relatório de IA generativa conta uma impressão quando um link do seu site é mostrado em AI Overview ou AI Mode, e esses dados também entram no relatório geral. Em setembro, John Mueller, do Google, concordou com uma explicação publicada no Reddit: a impressão conta quando o resultado é servido, mesmo sem rolagem, e cada link dentro da caixa herda a posição do bloco. Quer dizer que uma página que passa a ser citada ganha impressões, pode “subir” de posição e vê o CTR cair por pura aritmética. Uma conquista desenha no gráfico a mesma curva de uma perda. Detalhamos a armadilha da posição em por que a posição 1 esconde fracasso em AI Overviews.

Somam-se a isso a retirada do parâmetro &num=100, em setembro de 2025, que limpou impressões de robôs (a Outrank viu a mediana de 1.503 sites perder 33% das impressões em dias, com cliques em +4%), e o fim dos resultados enriquecidos de FAQ, em 7 de maio de 2026.

Por isso o clique vira o árbitro: o Google afirma que ele ficou de fora do erro. Falta saber que efeito esperar nele.

Quanto um AI Overview tira de cliques, afinal?

O número que mais circula é “61% de queda”, e tem gente multiplicando o tráfego por 0,6 a partir dele. Fui olhar o estudo e desisti da conta.

O número é da Seer Interactive, agência que vende SEO e GEO, e o estudo é sério. Em consultas informacionais com AI Overview, o CTR orgânico foi de 1,76% para 0,61% entre junho de 2024 e setembro de 2025. (O texto diz 61%; as duas pontas dão 65%.) O detalhe que muda tudo está ao lado: nas consultas sem a caixa, o CTR foi de 2,74% para 1,62%, queda de 41%. Boa parte do tombo acontece com ou sem IA. Descontando o grupo de controle, pela minha conta, sobra uma perda perto de 41%.

Esse resultado encosta no melhor dado disponível, o único experimento aleatorizado que encontrei.

EstudoDesenho e amostraResultadoPor que ter cuidado
Agarwal e Sen, ISB e Carnegie Mellon, 2026Extensão escondia a caixa de 1.065 usuários de Chrome no desktop, nos EUACliques orgânicos 39,8% menores nas consultas com a caixa (0,37 contra 0,62 por busca)Rascunho sem revisão por pares. A versão de abril dizia 38%. Li a cobertura, não o artigo
Seer Interactive, 20253.119 termos de 42 clientes, 25,1 milhões de impressões orgânicasPerda perto de 41% após controle (conta nossa)Só informacionais, só clientes da agência, coorte retrospectiva
Ahrefs, 2026300 mil palavras-chave, desktop, dezembro de 2023 contra dezembro de 202558% menos CTR na posição 1; 19,4% na posição 10Correlação com projeção; a empresa vende ferramenta de SEO

Leio assim: em consultas informacionais, 40% é a ordem de grandeza que eu defenderia em reunião, e no topo da página a perda pode ser maior. A escada da Ahrefs explica por que este diagnóstico compara faixas de posição: misturar posição 1 com posição 9 embaralha o resultado.

Duas limitações pesam. Nenhum desses estudos mediu o Brasil. E a Rekon não tem medição própria do efeito em cliques. Por isso a conta precisa ser feita no seu site.

Como fazer o diagnóstico hoje, em cerca de três horas?

Você compara dois grupos de duas formas: uma foto recente do CTR, com dado limpo, e um filme de um ano dos cliques. O método de coortes vem de Helen Pollitt, chefe de SEO da Getty Images; a adaptação às janelas e o grupo de controle no filme são nossos.

  1. Marque as janelas (10 min). CTR e posição, só de 28 de abril de 2026 em diante. Cliques podem atravessar a data. O Search Console guarda 16 meses, então o mesmo período de 2025 ainda está disponível.
  2. Exporte as consultas (30 min). Em Desempenho, Resultados da pesquisa, filtre tipo Web e país Brasil, e compare os últimos 28 dias com os mesmos dias de 2025. Separe as 40 consultas sem marca com mais cliques no período antigo. Consultas com o nome da empresa vão para outra aba: a Ahrefs viu a caixa nelas subir de 61,3% para 73,3% dos casos, em média mensal, entre julho e setembro (só desktop, EUA), e o comportamento de quem busca sua marca é outro.
  3. Marque quem tem a caixa (70 min). Busque cada consulta em janela anônima, no celular e no computador, em dois dias diferentes. Classifique como “sempre”, “nunca” ou “às vezes”, e anote se o seu site aparece como fonte. As de “às vezes” saem da conta. Um rastreador de posição que registre recursos da página substitui esta etapa. A limitação é a mesma da Seer e da Ahrefs: a marcação de hoje é projetada sobre o passado.
  4. Tire a foto (20 min). Com os últimos 28 dias, calcule o CTR de cada grupo (soma de cliques dividida por soma de impressões) dentro das faixas 1 a 3 e 4 a 10. Faixa com menos de cinco consultas de um lado não vale comparação.
  5. Rode o filme (20 min). Some os cliques de cada grupo nos dois períodos e projete o grupo com a caixa como se tivesse seguido o controle.
  6. Cruze com o relatório de IA generativa (20 min). Ele não traz cliques nem dimensão de consulta. Serve para ver quais páginas têm links aparecendo nas respostas. Página ausente dali pode estar debaixo de uma caixa que cita outra pessoa, então ausência não prova nada.

Um exemplo ilustrativo, com a marca fictícia Norte Contábil. As 18 consultas com a caixa foram de 2.400 para 1.560 cliques, queda de 35%. As 16 sem a caixa foram de 1.900 para 1.710, queda de 10%. Se o primeiro grupo tivesse seguido o segundo, teria 2.160 cliques. A perda atribuível à caixa fica em 600 cliques, ou 27,8%, e o dono do site que olhasse só o primeiro grupo culparia a IA por 840.

Deu certo se você termina com uma frase assim: “nas consultas com AI Overview, perdemos 35% dos cliques em um ano, contra 10% nas sem a caixa, e 13 das 18 caíram mais que a mediana do controle”. O corte que sugerimos para tratar a suspeita como forte: diferença de 15 pontos ou mais entre os grupos e pelo menos dois terços das consultas com a caixa abaixo da mediana do controle. Ele não tem valor estatístico. Com 40 consultas, dá para separar sinal de ruído, mas não para cravar o tamanho do efeito.

O que o resultado quer dizer?

O que você vêLeitura provávelPróximo passo
Consultas com a caixa caem bem mais, posição parada desde maioAI OverviewTriagem da próxima seção
Os dois grupos caem juntosDemanda, sazonalidade ou problema no siteGoogle Trends e auditoria técnica antes de falar em IA
Queda concentrada onde a posição piorou desde maioRankingSEO clássico; a caixa é coadjuvante
Queda a partir de maio em páginas que exibiam FAQFim do resultado enriquecido de FAQOlhar essas páginas em separado
CTR cai, cliques estáveis ou em altaDenominador infladoNada a recuperar
Analytics cai, cliques do Search Console nãoAtribuiçãoVer o erro de medição do tráfego do ChatGPT

Só a primeira linha pede uma estratégia para AI Overviews. As outras cinco têm remédios mais baratos.

Confirmado o AI Overview, o que fazer com cada consulta?

Pollitt propõe separar as consultas em três baldes. Adoto a divisão, com um freio no último.

Defender vale para consultas comercialmente importantes que ainda mandam cliques. Aqui entra o que a caixa não entrega: calculadora, simulador, arquivo para baixar, dado atualizado que a pessoa precisa conferir.

Adaptar vale para consultas importantes em que o clique não volta. O objetivo muda: ser o nome dentro da resposta. Com a expectativa certa, porque a Seer mediu CTR orgânico de 0,70% para marcas citadas contra 0,52% para não citadas. São 35% a mais, só 0,18 ponto em termos absolutos, e os autores avisam que não conseguem provar causa, já que marcas fortes tendem a ser citadas e a receber cliques de qualquer jeito. Citação compra presença. Nenhum estudo que li sustenta a promessa de recuperar tráfego com ela. Para a execução, comece por quem ocupa o seu lugar e por como estruturar a página. A auditoria gratuita mostra em minutos se a sua marca aparece nos chatbots. Ela não cobre o AI Overview, que entra só no acompanhamento mensal; para a caixa, vale a sua planilha do passo 3.

Depreciar vale para topo de funil informacional com pouco valor de conversão: não gaste para reconquistar. Aqui eu poria um freio, antes de chamar esses cliques de lixo. No experimento de Agarwal e Sen, as três medidas de qualidade não diferiram entre os grupos, e os autores dizem que isso contraria a ideia de que a caixa elimina só visitas de baixo engajamento. Olhe a jornada de quem entrou por aquelas páginas e ponha um valor nela. Para levar isso à diretoria, use o roteiro de como vender GEO sem prometer o que não dá.

Perguntas frequentes

O relatório de IA generativa do Search Console não resolve isso sozinho?

Não. Ele mostra impressões dos seus links por página, país, data e dispositivo, sem consulta e sem cliques. E só registra quando o seu link aparece, então uma caixa que cita o concorrente não deixa rastro nele.

Meu site é pequeno. Quantas consultas preciso para concluir?

Com menos de 20 consultas em cada grupo, trate o resultado como pista e repita no mês seguinte. Se o site não tem esse volume, compare grupos de páginas parecidas e olhe só os cliques.

Esses percentuais valem para o Brasil?

Não sabemos. Os estudos da tabela mediram os EUA ou amostras sem recorte brasileiro divulgado. Use-os como ordem de grandeza e deixe a decisão para a sua conta.

Fui citado no AI Overview e os cliques caíram mesmo assim. Deu errado?

Não necessariamente. A citação pode manter sua marca na resposta sem devolver o clique, como sugere a pequena diferença da Seer. Acompanhe também as buscas pelo nome da marca e pergunte a cada cliente novo como conheceu a empresa, a leitura que explicamos em como medir marca quando ninguém clica.

O que eu não faria

Não ligaria o opt-out por raiva. O controle do Search Console tira seus links e seu conteúdo de AI Overviews, AI Mode e dos recursos de IA do Discover, mas o conteúdo de outros sites continua podendo aparecer. Olhe de novo o experimento: o clique cai porque a caixa está na página. Sair dela não a remove. Você abre mão do lugar e a caixa fica, respondendo com o concorrente. O teste de Cyrus Shepard, que comentamos no post sobre medir marca sem clique, aponta na mesma direção, com a fragilidade de ser um único site. Se a curiosidade vencer, teste numa subpasta, com propriedade de prefixo de URL, e nunca no domínio inteiro.

Também não multiplicaria o tráfego por 0,6 para assustar a diretoria, nem reescreveria 40 páginas antes de saber em qual linha da tabela você está. As duas coisas dão sensação de ação e nenhuma informação.

Três horas de planilha custam menos que a primeira página reescrita à toa. E a resposta tem boa chance de ser desconfortável de outro jeito: talvez a IA tenha levado menos do que você contou para o seu chefe.

Como medimos está na metodologia.

Leu o método. Falta o número da sua marca.

A auditoria gratuita pergunta às IAs sobre o seu setor e mostra quem aparece no seu lugar.